Carregando...

  • 13 Oct, 2026

Líderes de gangue ameaçam executar reféns se a polícia agir; ONU condena. Analistas dizem que ataque visa controlar rotas estratégicas e pressionar o governo.

Um ataque de gangues no domingo (23) em Kenscoff, nos arredores de Porto Príncipe, no Haiti, deixou 47 mortos e mais de 50 pessoas sequestradas, abalando a percepção de segurança no país.

Segundo relatos de sobreviventes e autoridades, entre os mortos estão cinco crianças. A ação foi descrita como um dos maiores sequestros em massa registrados no Haiti nos últimos anos.

Um líder criminoso identificado como Izo 2 — ligado ao poderoso chefe conhecido como Izo ou Johnson André — publicou um vídeo em que ameaça executar os reféns caso a polícia mate integrantes das gangues durante operações para retomar o controle da região. No vídeo, ele cita diretamente Vladimir Paraison, diretor da Polícia Nacional do Haiti.

O prefeito de Kenscoff, Jean Massillon, relatou que as gangues incendiaram ao menos 25 casas e mataram dois funcionários do governo, um deles parente próximo do gestor municipal e ligado à equipe de segurança.

Testemunhas descrevem cenas de violência extrema. Um morador, Marc Paul, afirmou que parentes próximos foram sequestrados e que uma adolescente de 16 anos foi estuprada, conseguiu escapar e se reencontrou com a família. Paul disse ter visto corpos durante a fuga.

Especialistas em crime organizado observam que a ameaça de execução dos reféns cria uma armadilha política para as forças de segurança: se não atuarem serão acusadas de omissão; se avançarem e houver mortes, as gangues poderão responsabilizar o Estado.

O ataque teve repercussão internacional: nesta terça-feira (25), o secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou a ofensiva e informou que 22 das vítimas foram executadas em um complexo de uma igreja onde haviam buscado abrigo.

Grupos armados disputam Kenscoff por seu valor estratégico: a região permite cercar e controlar Pétion-Ville, uma área nobre da capital, e domina rotas alternativas que ligam Porto Príncipe ao sul do país. As gangues vêm tentando expandir atuação para comunidades rurais vulneráveis, aproveitando a baixa capacidade de resposta policial.

Pesquisadores indicam que, entre janeiro e agosto, operações de segurança chegaram a reduzir a violência em Kenscoff em cerca de 66% antes do ataque. Ainda assim, o episódio de domingo é apontado como a maior ofensiva contra a localidade desde a primeira grande invasão registrada em janeiro de 2025.

Sobreviventes responsabilizam o governo por falta de proteção preventiva; a Polícia Nacional do Haiti negou as acusações. Observadores questionam, inclusive, por que forças e blindados teriam sido deslocados para a região se as gangues conseguiram penetrar e cometer ataques tão devastadores.

Homens armados controlam atualmente cerca de 70% de Porto Príncipe e grandes áreas do centro e de outras regiões do país. A violência agravou uma crise humanitária: aproximadamente 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas internamente e, entre janeiro e junho, mais de 3.050 mortes foram registradas.

Relatórios das Nações Unidas apontam ainda um aumento de estupros e sequestros: quase 800 estupros foram registrados entre abril e junho (87% em contexto de estupros coletivos) e pelo menos 81 sequestros nesse mesmo período — número que, segundo o relatório, representa apenas uma parcela dos casos reais, já que muitas famílias negociam diretamente com sequestradores.

Autoridades locais e especialistas afirmam que o ataque a Kenscoff pode ter tido objetivos múltiplos: obrigar a polícia e a força apoiada pela ONU a redistribuir recursos limitados, demonstrar força das gangues e enviar uma mensagem ao governo às vésperas das eleições gerais previstas para 13 de dezembro.

O episódio reacende o debate sobre a capacidade do Estado haitiano e de missões internacionais em proteger comunidades vulneráveis e restaurar segurança suficiente para permitir retorno de deslocados e a realização de processos eleitorais.

Fonte da imagem: AP Photo/Odelyn Joseph

Fonte das informações: ONU e autoridades locais

Sua experiência neste site será melhorada, permitindo que os cookies Política de Cookie