Decreto obriga atendimento humano nos SACs entre 8h e 20h
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Reforma de contratos e salários na Ucrânia atrai brasileiros; Itamaraty diz 92 desaparecidos e 35 mortos, e há relatos de companhia com lusófonos e salários maiores.
Autoridades ucranianas ampliaram incentivos a combatentes estrangeiros — incluindo ofertas de salário e mudanças contratuais — na tentativa de atrair mais voluntários para a guerra contra a Rússia. Embora os números precisos sejam mantidos em sigilo por razões estratégicas, sinais apontam para presença significativa de brasileiros entre os estrangeiros que lutam ao lado da Ucrânia.
Indícios dessa participação incluem a existência de uma companhia majoritariamente de falantes de português, liderada por brasileiros, e divulgação regular, em português, de material de recrutamento pelas estruturas ucranianas destinadas a estrangeiros. Contagens não oficiais de mortes e desaparecimentos por anúncios públicos colocavam o Brasil entre os países com maior número de combatentes estrangeiros mortos; durante a apuração desta matéria, o país aparecia em terceiro lugar, com mais de 100 mortes em levantamentos não oficiais.
A seguir, números oficiais e estimativas não oficiais sobre brasileiros no conflito.
| Fonte | Desaparecidos | Óbitos |
|---|---|---|
| Itamaraty (dados oficiais) | 92 | 35 |
| Contagem não oficial | — | Mais de 100 |
Entre os casos recentes está o de Edi Soares de Souza, morto em combates na região de Zaporíjia, cujo funeral circulou em redes sociais. Em dezembro de 2025, outro brasileiro, Bruno Gabriel Leal da Silva, de 23 anos, foi encontrado morto dentro de uma base militar ucraniana com sinais de tortura; relatos indicaram que ele ainda não havia assinado contrato. O episódio levou a investigações sobre uma companhia composta majoritariamente por brasileiros, sob suspeita de abusos. A Procuradoria Militar da Ucrânia informou que a Polícia Nacional em Kiev investiga possíveis indícios de homicídio culposo por negligência; não há, até o momento, ninguém formalmente acusado.
A necessidade de recrutar combatentes estrangeiros está ligada às pesadas perdas e aos desafios de reposição de efetivos enfrentados pelas Forças Armadas da Ucrânia desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. Estudos recentes estimam entre 125 mil e 150 mil mortos entre os militares ucranianos desde então, além de mais de 200 mil deserções, segundo algumas estimativas.
Três dias após o começo da invasão, o presidente ucraniano fez um apelo público a voluntários estrangeiros. Desde então, milhares ingressaram na chamada Legião Internacional da Defesa Territorial; em 2026, autoridades ucranianas disseram que mais de 10 mil combatentes de cerca de 75 países já haviam lutado pelo país.
Há relatos pessoais de brasileiros que decidiram participar. Giovanni Paese, que vive há quatro anos na Ucrânia, disse que alguns amigos o convenceram a ir e que o treinamento inicial foi rápido — "duas, três semanas ali e já estava em missão". Atualmente ele atua com drones, uma função considerada menos exposta que a infantaria, casou-se com uma ucraniana e comprou apartamento.
Veteranos ressaltam, porém, que a realidade costuma ser mais dura do que a imagem mostrada nas redes sociais. "Eu desconheço um soldado que ficou rico aqui", afirmou Anderson Quadros, que também combate na Ucrânia. Segundo ele, poucos conseguem adquirir bens; muitos enfrentam problemas como alcoolismo e outras dificuldades após o retorno das frentes.
Na linha de frente, soldados relatam longos períodos em trincheiras e posições improvisadas sob intenso bombardeio, em condições que aliados descrevem como exaustivas e perigosas.
Em termos jurídicos, existe controvérsia sobre a classificação desses combatentes. A Rússia trata voluntários estrangeiros que lutam pela Ucrânia como mercenários, argumento usado por Moscou para negar a essas pessoas as proteções previstas pela Convenção de Genebra; em algumas áreas controladas por separatistas, há relatos de condenações à morte. A Ucrânia rejeita essa interpretação: afirma que estrangeiros incorporados à Legião Internacional assinam contratos oficiais, integram a estrutura militar e têm os mesmos direitos, deveres e remuneração dos soldados ucranianos. Especialistas em direito internacional apontam que esse regime contratual é um dos motivos pelos quais juristas contestam a classificação russa.
A Organização das Nações Unidas mantém posição crítica ao mercenarismo e possui convenções sobre o tema, mas não classificou oficialmente os combatentes estrangeiros na Ucrânia como mercenários.
Recentes mudanças contratuais ucranianas estabeleceram permanência mínima de seis meses para estrangeiros, facilidades migratórias para permanência após o serviço e remuneração atrativa: dependendo da função e da proximidade à linha de frente, o salário mensal pode chegar ao equivalente de cerca de R$ 53 mil. O ministro da Defesa chegou a afirmar que a infantaria e as tropas de assalto ucranianas seriam as mais bem pagas do mundo depois da reforma.
Apesar desses incentivos, veteranos e analistas alertam que o pagamento e as condições variam e que a promessa de ganhos expressivos nem sempre se concretiza. Em caso de morte em combate, famílias podem receber indenizações que, em determinadas circunstâncias, chegam a cerca de R$ 2 milhões, mas a liberação desses recursos costuma depender da localização do corpo ou de longos processos judiciais para reconhecimento formal do óbito.
Do ponto de vista legal nacional, a crescente participação de brasileiros levanta dúvidas. Ao contrário da Colômbia, que ratificou a Convenção da ONU contra mercenários e tipificou o mercenarismo como crime, o Brasil não aderiu a esse tratado. Especialistas apontam uma lacuna jurídica interna, já que a legislação brasileira não trata especificamente da participação de cidadãos em conflitos armados estrangeiros sob a ótica do mercenarismo.
O Itamaraty reforça que a capacidade de assistência consular em zonas de guerra é severamente limitada por razões de segurança e recomenda que brasileiros evitem qualquer envolvimento com forças armadas estrangeiras.
Enquanto o conflito continua e ambos os lados enfrentam dificuldades para repor efetivos, brasileiros seguem entre os estrangeiros presentes no combate — motivados por ideais, experiência militar, solidariedade ou pela remuneração oferecida. Para muitos, a decisão implica assumir riscos elevados, incluindo morte, desaparecimento, ferimentos e complicações legais.
Fonte das informações: Itamaraty e apuração jornalística
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