Carregando...

  • 12 Oct, 2026

Estudo em Porto Velho mostrou que 13 de 18 espécies do rio Madeira têm mercúrio além do limite da Anvisa, ameaçando saúde de comunidades ribeirinhas.

Levantamento científico recente indica contaminação por mercúrio em peixes do rio Madeira, em Porto Velho (RO), com implicações diretas para a saúde e a segurança alimentar das comunidades ribeirinhas.

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria analisaram amostras de tecido muscular de 18 espécies coletadas na região e verificaram que 13 delas apresentaram concentrações de mercúrio acima dos limites máximos estabelecidos pela Anvisa. Em vários casos, os teores superaram em até quatro vezes o padrão considerado seguro para consumo regular.

A contaminação foi detectada tanto em espécies carnívoras quanto em peixes que vivem junto aos sedimentos de fundo, o que eleva a exposição de populações que consomem esses recursos com frequência.

Pesquisadores detectam índices preocupantes de mercúrio em peixes do rio Madeira e revelam quais espécies acumulam as maiores concentrações
Peixes expostos à venda em Porto Velho, evidenciando a contaminação por mercúrio.

O principal motor dessa contaminação é o garimpo ilegal de ouro na bacia hidrográfica, que despeja rejeitos com mercúrio nos cursos d'água. Micro-organismos presentes nas águas convertem o metal em metilmercúrio, uma forma orgânica altamente biodisponível, que se fixa no tecido muscular dos peixes e se concentra progressivamente ao longo da cadeia alimentar (biomagnificação).

Entre as espécies com maiores concentrações detectadas estão predadores de grande porte e espécies bentônicas. Exemplos citados no estudo incluem:

Pesquisadores detectam índices preocupantes de mercúrio em peixes do rio Madeira e revelam quais espécies acumulam as maiores concentrações
Amostra de peixe em análise para detecção de mercúrio.
  • Jaú (Paulicea luetkeni) — altas taxas associadas à longevidade e ao hábito alimentar predador;
  • Piracatinga (Calophysus macropterus) — necrófaga, alimenta-se em sedimentos e de matéria em decomposição, acumulando contaminantes;
  • Dourado (Salminus maxillosus) — predador de topo de cadeia, concentra toxinas ingeridas pelas presas.

Os dados mostram padrão consistente: espécies de topo trófico e as que convivem com sedimentos apresentam as maiores cargas de mercúrio. Para muitas famílias ribeirinhas que consomem peixe diariamente, poucas refeições já bastam para ultrapassar o limite semanal tolerável de ingestão de mercúrio.

Do ponto de vista da saúde pública, a exposição crônica ao metilmercúrio causa danos cumulativos ao sistema nervoso central, afetando coordenação motora, visão e capacidades cognitivas. Gestantes e crianças são os grupos mais vulneráveis, pois o metal atravessa a placenta e pode provocar comprometimento do desenvolvimento cerebral fetal com sequelas permanentes.

Pesquisadores detectam índices preocupantes de mercúrio em peixes do rio Madeira e revelam quais espécies acumulam as maiores concentrações
Homem pesca peixes no rio Madeira, que apresentam altos níveis de mercúrio.

Especialistas ouvidos pelos autores do estudo recomendam ações imediatas: intensificação da fiscalização ambiental para combater a mineração clandestina, monitoramento contínuo das águas e dos estoques pesqueiros, e orientação às comunidades para diversificar fontes alimentares e evitar consumo frequente de espécies de maior risco.

Autoridades públicas têm papel central na garantia de alimentos seguros e na proteção das populações tradicionais que dependem da pesca para subsistência.

Fonte das informações: Universidade Federal de Santa Maria / Journal of the Brazilian Chemical Society

Sua experiência neste site será melhorada, permitindo que os cookies Política de Cookie