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  • 12 Oct, 2026

Crise financeira derruba recursos da ONU: ACNUR cortou 1/3 do quadro, arrecadou menos de 40% do pedido; no Brasil há só 22% do orçamento e 500 chegadas/dia.

As Nações Unidas cortaram mais de 10 mil postos de trabalho em um ano e aprovaram a extinção de outros 2,9 mil cargos para 2026, numa redução que ameaça programas humanitários e de assistência a refugiados em todo o mundo. Vinte e uma das 41 agências e organismos do sistema foram atingidos pelas medidas, que incluem demissões voluntárias e aposentadorias antecipadas.

ONU enfrenta crise e corta mais de 10 mil postos

ONU enfrenta crise e corta mais de 10 mil postos — vídeo publicado no Globoplay.

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O impacto humanizado dessas perdas aparece na trajetória de Delmany Rodrigues, que chegou ao Brasil em 1994 vindo de Angola. Ele e o irmão receberam apoio de organizações humanitárias, entre elas o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e tiveram acesso a cestas básicas, remédios, auxílio para aluguel e bolsas de estudo que possibilitaram a formação superior e inserção profissional.

Os cortes acompanham a deterioração das finanças do sistema ONU: em 2024 havia 130.948 postos de trabalho; em 2025 esse total caiu para 120.176, uma redução de cerca de 8%. Para 2026, o orçamento e as estruturas administrativas também foram reduzidos enquanto a demanda por assistência cresce.

Os números do quadro de funcionários das Nações Unidas mostram a dimensão da queda de pessoal.

AnoNúmero de postosVariação
2024130.948—
2025120.176-8%
2026 (aprovado)eliminação de 2.900 cargos—

Uma das agências mais afetadas é o ACNUR. Em pedido anual, o Comissariado solicitou US$ 10,6 bilhões para cumprir suas funções e apoiar quase 130 milhões de pessoas, mas arrecadou menos de 40% desse montante. Para 2026, o ACNUR precisava de US$ 8,5 bilhões e, até o fim de julho, havia recebido apenas US$ 2,7 bilhões — parte dos recursos, além disso, está vinculada a projetos específicos determinados por doadores.

A tabela abaixo resume as necessidades e os recursos do ACNUR nos dois últimos ciclos citados.

AnoSolicitado (US$)Recebido (US$)Percentual
202510,6 bilhõesmenos de 40% do solicitadomenos de 40%
20268,5 bilhões2,7 bilhões≈31,8%

Como consequência dos cortes, o ACNUR diz ter fechado escritórios em 140 locais, encerrado operações em 15 países e reduzido em um terço sua força de trabalho, medidas que podem deixar 8,3 milhões de pessoas sem assistência vital em 2026. Em áreas como Afeganistão, Síria, Etiópia e Chade, os serviços de proteção a crianças e populações vulneráveis foram especialmente afetados.

No nível global, a crise financeira inclui também atraso no pagamento de contribuições obrigatórias de países-membros. Nos últimos dois anos, Estados deixaram de pagar cerca de US$ 1,6 bilhão. Entre os maiores devedores aparecem os Estados Unidos, que chegaram a dever US$ 1,3 bilhão em contribuições regulares antes de efetuar um pagamento parcial.

Além da inadimplência, os Estados Unidos reduziram contribuições voluntárias destinadas à assistência humanitária — sendo responsáveis por aproximadamente 45% do orçamento dessa área — e condicionaram novos repasses a reformas e a “progresso mensurável”. Autoridades americanas também afirmaram que vigiariam o destino dos recursos e poderiam bloquear pagamentos considerados contrários à política externa do país.

Especialistas em relações internacionais classificam a estratégia americana como uma pressão para reduzir a estrutura e a interferência da ONU, e alertam para o risco de criação de mecanismos paralelos de influência.

No Brasil, o ACNUR registrou dificuldades semelhantes: até o fim de agosto a agência havia recebido apenas 22% dos recursos necessários para operar em 2026. Em 2025, cerca de 40% da força de trabalho do ACNUR e de organizações parceiras no país foi cortada, o que colocou em risco assistência a mais da metade dos refugiados que dependem desses programas. O problema atinge refugiados que chegam diariamente ao país — até 500 pessoas por dia entram pelo estado de Roraima em busca de proteção internacional.

Em nível orçamentário geral, a manutenção da estrutura do sistema ONU custou US$ 64,3 bilhões em 2025, queda de 2% em relação a 2024, e dois terços desse valor foram destinados a assistência humanitária e ações de desenvolvimento. Para 2026, o orçamento do Secretariado da ONU foi reduzido em 7%, para US$ 3,45 bilhões.

O ACNUR e porta-vozes das Nações Unidas têm pedido aumento e flexibilização de recursos, argumentando que o financiamento flexível é essencial para manter serviços de proteção que salvam vidas e para evitar novos cortes que afetem refugiados e demais populações vulneráveis.

Refugiados e profissionais que dependem desses programas alertam para o impacto humano imediato: menos acesso a alimentos, vacinas, educação e abrigo para famílias já em situação de fragilidade.

Fonte das informações: g1

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