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  • 09 Aug, 2026

Alta da geração solar distribuída e falta de políticas públicas provocam curtailment, prejuízos a investidores e pressão por armazenamento e regulação.

O Brasil enfrenta atualmente um problema contrário ao apagão de 2001: excesso de oferta de energia elétrica, impulsionado sobretudo pela expansão da geração solar distribuída, segundo especialistas e entidades do setor.

Para evitar sobrecargas no Sistema Interligado Nacional (SIN), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou em 7 de junho um plano emergencial que determinou a redução ou o desligamento temporário de usinas — prática conhecida como curtailment — pela primeira vez após a aprovação, em novembro do ano passado, de um plano para lidar com excesso de oferta.

O corte visou equilibrar a alta geração com a demanda reduzida em um fim de semana prolongado (Corpus Christi) e temperaturas mais baixas; medidas semelhantes também ocorreram em dias de jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo, quando a atividade econômica cai.

O curtailment afeta usinas eólicas e solares de grande porte, mas o problema foi agravado pelo crescimento da chamada geração distribuída — painéis instalados em residências, comércios e pequenas propriedades que injetam energia na rede sem comando centralizado do ONS.

Segundo dados de agências reguladoras, cerca de 90 milhões de consumidores existem no país; aproximadamente 4,5 milhões (5% do total) são micro e minigeradores por meio de painéis solares, que recebem créditos pela energia que aportam ao sistema.

Dados sobre a participação da geração distribuída:

CategoriaValor
Total de consumidores~90 milhões
Micro e minigeradores (geração distribuída)4,5 milhões
Consumidores-geradores residenciais3,6 milhões
Comerciais400 mil
Outras categorias (público, rural etc.)500 mil
Potência instalada dos consumidores-geradores50 GW (~20% da potência total)

Especialistas alertam que os 50 gigawatts declarados podem estar subestimados: análises do ONS e estudos acadêmicos apontam possibilidade de subnotificação de até 15 GW, o que eleva a incerteza sobre a real capacidade conectada ao sistema.

Diferentemente de usinas de grande porte, cuja operação pode ser controlada centralmente pelo ONS, a geração distribuída não é desligada automaticamente pelo operador; eventual desconexão depende das distribuidoras locais, o que reduz a efetividade de cortes feitos apenas sobre recursos sob coordenação direta do ONS.

Representantes do setor e associações divergem sobre as causas e soluções. A Associação Brasileira de Energia Eólica afirma que o curtailment prejudica investidores em renováveis, enquanto a entidade que representa a energia solar fotovoltaica classifica como simplista responsabilizar apenas a geração distribuída e aponta falta de políticas públicas de flexibilidade, armazenamento, modernização de redes e gestão da demanda.

Pesquisadores também indicam que incentivos fiscais, linhas de crédito e subsídios favoreceram rápida expansão de parques e de geração distribuída, criando um descompasso entre oferta e mecanismos de controle e flexibilidade do sistema.

Além da estrutura do sistema, fatores sazonais e comportamentais agravam o desequilíbrio: feriadões concentrados em determinadas semanas e partidas de futebol em dias úteis reduzem temporariamente o consumo, elevando a pressão por cortes de geração.

O impacto financeiro da conjuntura atinge consumidores: nos últimos 12 meses até junho, a tarifa residencial acumulou alta de 8,79%, segundo dados oficiais de inflação.

Como medidas de curto e médio prazo, especialistas e planejadores apontam o curtailment como instrumento necessário, mas defendem investimentos urgentes em tecnologias de armazenamento (baterias) e em usinas reversíveis de bombeamento, além de modernização da infraestrutura e aprimoramento da governança do setor para acomodar a expansão renovável sem desperdício.

Relatos de ex-membros do setor e economistas descrevem o cenário como um desarranjo de planejamento, em que decisões legislativas e subsídios, muitas vezes impulsionados por interesses setoriais, reduziram a capacidade de coordenação e aumentaram custos futuros — que, segundo análises, tendem a recair sobre o consumidor final.

Em síntese, o desafio imediato é gerir a coexistência entre uma base crescente de geração distribuída e a necessidade de manter equilíbrio entre oferta e demanda por meio de mecanismos operacionais, investimentos em flexibilidade e maior coordenação entre agentes reguladores, operadores e distribuidoras.

Fonte da imagem: Getty Images

Fonte das informações: g1.globo.com

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